Decidi que hoje seria meu dia de folga. Festinha de dia das mães na escola do pequeno, eu pretendia relaxar e passar um dia sem prestar muito atenção na casa ou escrever feito louca como tenho feito nos últimos tempos. Decidi que faria apenas a fisioterapia porque a recente dor no pé ( arrumei um negócio chamado fascíte plantar) não quer parar e daria um trato no visual pro pequeno não passar vergonha. E assim foi, quer dizer , mais ou menos.
O dia começou uma hora antes do previsto, seis da madruga, porque o filho resolveu falar sozinho durante o sono . Depois que acordei, quem disse que consegui pregar os olhos ? Melhor levantar e preparar o café, talvez até tomar o café antes do meu vendaval levantar e pedir o leitinho com biscoito. E durante o café , acontece. Quebrei uma obturação e um pedaço do dente saiu reluzente da minha boca antes das sete da matina. Agora resta esperar até as oito para deixar dois recados nos telefones da dentista pedindo piedade com uma mãe que precisa ir a uma festinha na escola ainda hoje. Falta ligar , deixar os recados que a dentista não retornará, insistir mais um pouco para conseguir apenas um horário para amanhã no fim da tarde. Beleza.
Correndo para deixar o filho na aula de capoeira, não vi que um botão ( muito importante) da camisa havia caido. Quer dizer , até vi, mas só quando estava na metade do caminho para a fisio, parada esperando alguns bons minutos o rapaz da gráfica me entregar uns exemplares de Culpa de mãe. Bem que o cara me olhou de um jeito estranho, a blusa tava aberta, mas a bolsa atravessada cobria o rombo, eu acho. Como eu não poderia passar o dia todo com a camisa aberta na altura do sutiã, voltei em casa e peguei a primeira blusa que vi pela frente. É uma turquesa e rosa ( visualizou?) larga , boa para dias do inchaço da TPM, ( visualizou?) , coloquei e corri pra fisio.
A clínica é um lugar que, do ponto de vista médico, atende até bem, já que os médicos são preparados, mas parece SUS da classe média . Como podemos pagar por saúde duas vezes e ainda sermos tratados assim? Assim, como? Na primeira sessão esperei por uma hora, hoje foram duas horas e meia. Os funcionários pediam desculpas mas a demanda era grande demais. Duas horas e meia para entrar mas o tempo da sessão, totalizaram 3 horas naquele lugar com promessas que aquilo não se repetiria. Saí, atrasada e mancando, direto para o salão , sem almoçar, é claro.
Pelos filhos fazemos mesmo sacrifícios e o salão de beleza hoje em dia é uma tortura para mim, não consigo mais me divertir com papo de salão. Mas hoje, meu dia de folga, foi um daqueles dias em que dá vontade de nunca mais pintar o cabelo , ainda que ele já esteja todinho branco. É hoje deu vontade de virar a rainha da inglaterra e assumir os cabelos ( todos ) brancos porque assim que sentei para ser atendida, uma mulher ( com aproximadamente 30 anos que fazia as unhas ) na minha frente, começou a falar que não entende porque as pessoas NUNCA falam sobre a parte miserável de se ter filhos. “Por que – ela disse – todo mundo olha pra gente quando esta grávida e diz que é lindo, que o bebê será lindo e tudo vai ficar maravilhoso?”. “ Por que – ela perguntou enfaticamente – as pessoas dizem isso ? Agora, eu tenho um filho que com um ano de idade é uma PESTE! Já pedi ao pediatra um remédio para ele se acalmar, mas ele não para quieto e o médico diz que não há nada de errado com ele, ele é saudável.” Se a leitora acha que a coisa está ruim, espere até ouvir o resto pois quando a manicure quis amenizar a situação retrucando que criança ativa é sinal de saúde, a mulher replicou: “ Todo mundo diz que isso é sinal de saúde, eu gostaria que ele tivesse MENOS saúde!”
Tive vontade, talvez pela falta de sono, pelas 3 horas esperando pela fisio ou pela fome, de acertar um soco naquele nariz grande e quebrar seus dentes de coelho , mas continuei sentada pensando em como a maternidade acontece milagrosamente mesmo a seres assim, tão obtusos. Ela continuou dizendo que era muito difícil para uma mulher trabalhar, ser esposa e dona de casa , além de mãe. Que morava em Ipanema ( bairro nobre do Rio de Janeiro ) e as vizinhas todas tinham babá no fim de semana, sinal de que não queriam ser mães. Senti uma certa inveja na voz dela, parecia que ela queria uma babá aos domingos para tercerizar sua peste também. Fiquei com pena da criança e de mim, que só queria tirar um dia de folga hoje. Ninguém abiriu a boca no salão até que ela deu adeus, foi embora , e quando a porta se fechou as críticas explodiram.
Saí do salão chateada com o ocorrido. Fiquei me lembrando da noite de ontem, quando encontrei meu filho em cima do carrinho de lanches de brinquedo , quase se agarrando nas cortinas e caindo de cabeça no chão. Pensei em como eu fiquei gelada, fui até ele calmamente , coloquei no chão e dei um bronca que o fez chorar sentido. Pensei em como eu amo aquele menino levado, com ego do tamanho do meu amigãozão, ora tímido, ora cheio de vontades e com sorriso mais lindo que vi na minha vida. Chamo-o de “ meu terrorista” por que ele realmente toca o terror , mas nunca consegui sentir recentimento por ser sua mãe. Tentei esquecer a maluca do salão e me concentrar na minha fome, já eram 4 da tarde, mas uma mãe empurrando um carrinho com uma menina de uns 5 anos sofrendo de paralisia cerebral me causou arrependimento. Eu devia ter acertado mesmo um murro na cara da infeliz.
Pressionada pelo estômago e pelo adiantado da hora, atendi ao telefonema do marido me aconselhando a tomar uma sopinha por causa do dente. Disse que faria mas, ao invés disso, mandei brasa num big mac e ainda pedi um sundae de morango porque hoje era minha folga. Foi o tempo de correr para casa, me olhar no espelho pela primeira vez no dia e perceber que havia colocado a blusa turquesa pelo avesso e passado o dia todo com ela assim , tomar um banho me sentindo a mais louca das criaturas e trocar de roupa para chegar a tempo de assistir meu bichinho cantar “Abalou” com muita vergonha, me entregar umas sandálias havaianas customizadas e um cartão que dizia “ Eu adoro ir ao zoológico com você” . Não tive folga hoje mas meu dia valeu a pena. Nas minhas orações desta noite pedirei pela mãe daquela menina com paralisia cerebral para que dê forças para continuar na luta com o mesmo amor que hoje transparecia por muitos anos e pedirei também pelo bebê daquela mãe desequilibrada do salão , para que cresça forte e aguente o tranco até o fim.
*imagem Google images